Como o arvorismo corporativo ajudou o gerente Matheus a se conectar com sua equipe

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O cotidiano em uma incubadora de negócios não é fácil. Pelo menos para o Matheus, gerente de RH de uma das maiores startups do ramo. Apesar de se tratar do setor inovador, seus índices de satisfação interna e sua taxa de turnover eram bem tradicionais no que diz respeito à realidade da maioria das organizações.

Também, não teria como ser algo diferente disso. Sabe aqueles artigos cujo título geralmente começa com “X principais erros que os gestores Y cometem”? A cúpula da empresa certamente praticava todos, sem precisar adivinhar o número de equívocos citados nesses textos.

Sem qualquer receio de cometer exageros, a gestão de Matheus era capaz de contratar profissionais sem sequer considerar as competências comportamentais. As seleções eram pragmáticas, cartesianas. As decisões eram centralizadas e a equipe tinha internalizada a ideia de que era mera executora. Os esforços eram esquecidos e o trabalho, questionado.

“Passa lá no RH” era piada comum dos líderes para seus subordinados. O sorriso amarelo, também. Matheus, como chefe do RH, sabia que aquele não era o clima ideal para fomentar negócios e crescer perante os clientes. Por isso, há um bom tempo, tentava criar eventos e dinâmicas para reverter aquela cultura competitiva e opressora. Sem muito sucesso.

Até nos happy hours de sexta ele percebia que sua equipe não se sentia à vontade quando ele estava por perto. Os outros caciques… quer dizer, os outros chefes da empresa sabiam que aquilo era comum e não se importavam. Mas, para o responsável pelo capital humano, aquela situação deveria mudar o quanto antes.

Foi lendo uma matéria sobre esportes radicais que Matheus descobriu o recurso dos treinamentos corporativos vivenciais. Como a empresa ainda era nova no mercado, o orçamento estava apertado para praticar rafting ou viajar longas distâncias. Mas, para quem já havia tentando os recursos tradicionais, era hora de compreender se aquela história de conexão do corpo versus desconexão da mente realmente fazia sentido.

Sua busca continuou até encontrar uma empresa que oferecia a vivência do arvorismo corporativo em um shopping da Grande São Paulo. Ela organizava a logística, refeição, apresentações e os custos com transporte seriam reduzidos, porque o local era bem próximo, ficava a seis quilômetros da capital paulista. Perfeito!

Comunicou a todos os colaboradores da empresa sobre o grande evento. Percebia a resistência no olhar de todos, mesmo os colegas de sala. Como sabia que ninguém se oporia ou falaria abertamente sobre o desagrado, prosseguiu confiante.

O percurso era extenso e a altura da plataforma causou burburinho no grupo. Ao todo, eram 57 pessoas de diferentes idades, personalidades e níveis de condicionamento físico. O trabalho do instrutor, acalmando e conscientizando os envolvidos, foi fundamental para que dessem início à aventura.

Ao que tudo indica, o mais complicado foi tirar os olhos dos envolvidos do celular e incentivá-los a encarar a natureza. Como o shopping era a céu aberto, a possibilidade de ter uma experiência ao ar livre não poderia passar despercebida.

E realmente não passou. Aos poucos, Matheus percebeu como o clima durante a atividade foi melhorando, ficando mais leve e divertido. Sentiu orgulho da sua equipe por ela ter concluído o trajeto de forma organizada. Todos se ajudaram, ora animando os colegas a atravessarem a ponte sinuosa, ora rindo de si próprios nos trajetos em que precisavam engatinhar.

No almoço, aquela era uma empresa totalmente diferente da que entrara no espaço horas antes. Havia um clima amistoso e de confiança mútua. Os colaboradores, desde o Norberto — líder de operações — até a Ana Luísa — analista de crédito — pareciam mais felizes e empoderados. Aparentemente, aquelas horas resolveriam dois anos de conflitos.

Talvez agora você esteja esperando um “porém”, aquele momento nas histórias em que tudo desanda e o herói precisa se desdobrar para salvar o mundo. Mas não foi isso o que aconteceu, afinal, o tema aqui é arvorismo, quebra de paradigmas e fuga dos modelos mentais-padrão. Por que esse seria um relato comum, não é?

Matheus — que não era assim tão heroico — chegou para trabalhar mais disposto na semana seguinte. Não tinha trabalhado nem um minuto no fim de semana, mas sua mente parecia mais conectada ao trabalho. Cheio de energia e criatividade, logo chamou todos no mezanino para um breve bate-papo.

— Em primeiro lugar, quero dizer a todos que senti grande satisfação de participar desse treinamento outdoor com vocês. Saibam que esses momentos que passamos juntos na sexta servirão como referencial para toda minha carreira como gestor de RH. Espero que sintam o reflexo disso em cada sala e estação de trabalho dessa empresa.

Os olhares de cumplicidade substituíram os sorrisos amarelos de outrora. Todos estavam animados e partilhavam do mesmo sentimento. Inclusive, alguns relatórios que estavam parados havia semanas foram entregues na primeira hora trabalhada.

— Vocês lembram do cabo da vida? Aquele gancho que servia como recurso de emergência caso algo desse errado? Foi ele que me convenceu a subir 12 metros acima do solo! — todos riram — Ele também me fez pensar durante esses dias sobre como a nossa companhia deve funcionar. Como aconteceu lá no arvorismo corporativo, aqui, estamos todos conectados ao mesmo cabo.

— Se ele oxidar, corremos sério risco de fechar as portas. Mas, se as manutenções forem bem executadas e cada um cumprir sua tarefa com cuidado e dedicação, estaremos seguros. Da minha parte, tenham certeza de que farei o possível para que esse percurso seja melhor para todos.

Nem é necessário ressaltar como Matheus foi aplaudido naquele momento. Não era a primeira reunião que terminava dessa forma. Entretanto, dessa vez, os cumprimentos foram sinceros. Não é que o gerente mais “cabeçudo” da empresa havia se transformado em um líder empático e mais humano?

Oito meses depois, a incubadora conquistou quatro novos contratos de peso e melhorou o faturamento em 28%. O ambiente está bem longe de ser uma “Disney corporativa”, porém, melhorou bastante. A busca pelos culpados reduziu e deu lugar ao espírito do “posso ajudar”. Com o crescimento do negócio, é possível que aconteça um rafting com o time de vendas no próximo ano.

E eu, além de contador de histórias, continuo lançando os pagamentos e enviando as remessas bancárias por lá. Sugeri a criação de uma política de pagamento a fornecedores, aceita e implementada em pouco tempo. Deu até um gás para começar a minha pós-graduação em finanças. Sabe como é, preciso manter meu equipamento em dia.

Ah! Vou deixar aqui o contato da empresa que organizou nosso arvorismo corporativo. Vai que você está precisando acrescentar inteligência corporal na sua organização também…

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